Total de visualizações de página

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Alazão puxando carroça

  Chega a ser impossível escrever algo sobre, e isso, no mínimo, me intriga. E me tira do eixo das abcissas. Me tira do foco, do rumo, do destino. Me tira da rotação, do encosto da cadeira, do ponto de ônibus. Me tira o sossego, a noite de sono, a hora de almoço.
  Mas não o fato de você ter partido.
  Se quiseres saber isso é o que menos me incomoda no momento.
  O que me deixa divagando é não saber como me portar diante da situação. O que escrever sobre isso. Se deveria chorar de tristeza, de raiva, ou só brindar a vida. Será que é permitido ser tão feliz assim?
  E essa última pergunta é recíproca. Porque, às vezes, aos finais de semana quando curto minha própria companhia num cinema, quando aproveito as noites silênciosas cuidando de mim mesmo, correndo atrás do que eu quero, ou simplesmente parada em frente a um computador vendo o novo episódio de Narcos e comendo brigadeiro, eu me sinto mal. Mas não por estar na sua ausência, e sim por me sentir relativamente bem com isso. Bem por estar sem você, bem por estar sem ninguém. Bem por estar com a única pessoa que realmente importa nessa vida: eu.
  E isso soa um pouco egoísta, meio orgulhoso e até mesquinho. E me sinto mal por sentir isso.
  E me sinto atônita por não sentires o mesmo. Não por não sentir minha falta, mas por não se sentir mal por não sentir isso. Como consegue deitar a cabeça ao final do dia e dormir em paz? Como consegue dormir sabendo que vai dormir em paz? Como consegue sair por ai, beijar outras bocas, sem sentir remorso por ter deixado o meu batom vermelho por conta das lágrimas que tanto derramei por ti. Como consegue beber até vomitar numa quarta-feira sabendo que já me deixaste muito enjoada com nossas brigas? Como consegue ser tão frio com essa chuva torrencial do lado de fora dos nossos apartamentos?
  Como consegue não sentir mal por isso?
  E agora, escrevendo esse texto pra ti, observo que as intempéries foram superadas, que a chuva está passando, que está mais quente na sala. Mas percebo meu âmago se encher de tristeza. E não por sentir sua falta, ou por me sentir sozinha. Não me sinto abandonada, ou trocada, ou traída. Agora, me sinto um alazão puxando carroça: um desperdício de talento escrevendo sobre ti. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Tempos Verbais no Imperativo

(Futuro do Presente) Ficarei uma noite socando um travesseiro branco.
(Futuro do Pretérito) Ficaria no canto da sala sendo coadjuvante no musical da sua vida
(Presente) Fico uma hora parada na frente daquela faixa de pedestre
(Pretérito Imperfeito) Ficava propícia a ter um "troço" que dança no estômago
(Pretérito Mais que Perfeito) Ficara saturada de amores e mal casados
(Pretérito Perfeito) Fiquei ventania, epilepsia, monotonia, lobotomia
(Pretérito Sem Você) Eu fiquei só, eu fiquei pó.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ouvindo Bob Dylan

  Agora você parece tão duro quanto concreto, determinado a ser quem não esperamos que sejas, sentando na contramão da BR101 esperando pegar carona com um caminhão qualquer e ir para lugar nenhum. E eu estou aqui, parada na sua frente, por conta própria, completamente sozinha, sentindo minha pele gelar com o frio congelante do seu coração e meu rosto arder com o vácuo dos seus olhos.
  Pode esperar o próximo feriado que ela estará lá, apoiada no muro da sua casa, com os cabelos rebeldes voando por causa do vento, de mini saia e coturno, com o olhar perdido em algum ponto não existente que ela inventou para não ficar chorando pelas coisas que se passaram, com um cigarro na boca. Quando você a vir ela irá dará aquele sorriso torto que balança suas pernas e saberás que só ignorar o sentimento não será mais o suficiente. E ela estará ouvindo Bob Dylan, esperando a resposta que está soprada no vento.
  Assim (re)começa a história do furacão que passou pela sua vida. Com quem você gostaria de estar agora? Sentado numa sala de estar fria, assistindo o mesmo filme pela décima quinta vez, vivendo algo muito maior ao lado de alguém realmente importante para você?
  Viver um sábado sem saber o que será o domingo. Pode ser algo que mude a rotação dos planetas, o eixo terrestre, a data do solstício e do equinócio do próximo ano. Ou será apenas um domingo ao som de Bob Dylan.
  Não me venha com aquele papo de boteco com todo o seu jeito de "Cuidado, Boneca, se pensar alto demais não vai ter ninguém para te segurar.". Agora lhe digo, amor, quando não tem nada a perder não deve se ter medo de ganhar. Pode começar a procurar outra pessoa a quem culpar.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Há tempos eu não via páginas em branco

   Você precisa ter você a cima de qualquer coisa nesse mundo.Você precisa ser egoísta se quiser continuar sobrevivendo nesse mundo. E ser egoísta não é, de forma alguma, não se importar com as pessoas que você ama, que você quer bem; pelo contrário. Ser egoísta é se amar tanto a ponto de não querer arrastar aquele alguém para aquele casamento da sua tia-avó de 98 anos por não querer chegar lá sem ninguém. É vibrar com a possibilidade de passar uma noite sozinho, seja em casa tomando um vinho a um, seja em uma festa dançando sozinho. É saber que quando chegar em casa sua cama vai ser sua, e de mais ninguém. É dançar na balada da contramão sem medo de bater de frente com alguém. É achar o seu sorriso o mais lindo do mundo, o seu olhar o mais sedutor, o seu corpo o mais invejável.
  É ir onde você quer ir, beber o que acha melhor para o seu fígado, comprar aquelas botas que fazem suas pernas ficarem lindas (mesmo que ninguém ache), é chorar quando acha necessário - nem que para isso seja necessário recorrer ao banheiro - é ter a ciência do quanto o seu beijo é único, seu cheiro é penetrante e sua risada é única. É amar o outono, mesmo que todos gostem do verão, é passar um sábado a noite colocando a leitura em dia e, aí vem a melhor parte da vida, sem se preocupar se tem alguém se divertindo lá fora. Vivendo lá fora. Porque a pessoa mais importante, naquele momento, é quem está dentro daquele apartamento pintado da cor que você quis.
  E de repente, do nada, quando você gostar de alguém será por amor mesmo. Não será amar para se completar e sim para transbordar. Você será inteiro e não será metade de ninguém. E então, caro leitor, nada mais importará: a idade, o tempo, os tipos de música que ela ouve, o jeito que ela parece um furacão quando entra assim, do nada, na sua casa, o jeito irônico, o sorriso lacônico, os 440km e os sonhos maiores que a cabeça.
  Tudo vai ficar bem.
  Mas, por enquanto, ficamos na sexta a noite com vinho pra um. E várias, várias, várias páginas em branco.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Você não tem o direito

  Hoje eu senti um encomodo no peito, como se precisasse escrever novamente. E isso me deixou alegre, pois estava me aproximando novamente de quem eu era. E, para que isso acontecesse, reli meus antigos textos, os que falavam de você, os que falavam de ninguém, os que falavam de outras pessoas. E até fiquei surpresa com tamanha habilidade que eu tinha com as palavras e que fui perdendo com o passsar dos dias sem escrever. Você tirou isso de mim. Você acalantou minha alma e acalmou esse coração tão traumatizado e não fez mais necessário minhas palavras. E você não tinha esse direito.
  Não foi a primeira vez que virastes as costas para mim, que me deixou parada numa sala gélida esperando saber o que eu faria em seguida. Não foi a primeira vez que fechou a porta sem nem olhar uma última vez para trás. Não foi a última vez que me deu a capacidade de voar e depois cortou fora as minhas asas. E você não tinha o direito de fazer isso.
  Eras lacônico comigo, com gestos prolixos, me deixando cada dia mais atordoada sem saber o que poderia fazer para isso mudar. Me deixou angustiada, e você não tinha o direito de fazer isso.
  Fez-me sentir sozinha junto de meus amigos, fez-me sentir uma estranha na minha própria casa, uma intrusa no meu próprio universo, uma imigrante ilegal no meu próprio país de origem, a dona de uma vida que não era mais a minha. E você, com certeza, não tinha o direito de fazer isso.
  E agora estou seguindo a vida como deveria ter seguido há muito tempo. A tristeza bate forte e eu abraço os livros, a cabeça dói e eu tomo café, o corpo cansa e eu saio para correr, o cabelo fica sujo e eu tomo um banho de meia hora. E eu tento, e sofro, e suo, e luto. Daí, do nada, você surge no meu pensamento com um sorriso maravilhoso e com uma risada convidativa a chorar. Surge uma lembrança feliz, um beijo macio, um abraço aconchegante e tudo o que eu tinha construido no decorrer do dia acaba. Você não tem o direito.
  Ontem chorei muito. Fiz nada, larguei-me as traças, deitei no sofá e a única coisa que fiz foi esperar o dia passar. E estava convicta que faria isso por vários dias seguidos, até algo aparecer e, do nada, me dar motivos para sorrir novamente.
  Você, a partir de hoje, não tem mais direito sobre o sal das minhas lágrimas. Não tem mais o direito sobre o desespero dos meus gritos. Não tem mais o direito sobre o motivo dos meus sorriso. Não tem mais direito sobre minhas roupas, meus cabelos e meus olhos de ressaca.
  Esse é o último texto sobre o quanto você partiu meu coração.
  Você não tem mais direito sobre eles.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

As rimas de samba não são I Love You

  "Há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa e nessas ilhas cheias de distância o meu blusão de couro se estragou." -Belchior.
  Hoje, minha vida, eu estava ouvindo Belchior no caminho rumo ao cursinho, em um ônibus lotado. E meu corpo caia do oitavo andar a medida que eu evitava chorar ao lembrar das coisas mais fúteis e banais que eu jurava que já haviam sido apagadas da minha memória. Mas pelo jeito não, elas sempre estiveram ali comigo. E se, por uma infeliz intempérie do destino, elas façam-me ser quem eu tanto sou, quem eu tanto desejo não ser?
  Espero que você não tenha tirado-me da sua vida, como você tanto pretendia. Porque agora minha cama parece muito grande e não tenho ninguém para abraçar quando os sonhos horríveis me assombram de noite. Porque agora as paredes são muito mais geladas, o box do chuveiro parece imenso, a cozinha não é mais tão apertada, minha casa está muito mais longe, os domingos são muito mais longos, os livros tem mais páginas, o dia é muito mais comprido, e a noite agora, sozinha, tem muito mais que 30 horas. Tudo ficou maior. Menos o meu coração que a cada dia parece que se espreme mais dentro desse peito.
  Quanto tempo demorará até alguém me fazer rir como você fazia? Quanto tempo demorará até eu sorrir com o coração e não segurar mais as lágrimas toda a noite? O banheiro vai ouvir muito minhas lamentações ainda, ou meu fígado ainda terá muito cachaça para aguentar?
  A vida voltará a ser feliz? A vida voltará?
  Amar e mudar as coisas não me interessam mais, só corações sozinhos nessas capitais.
  Eu fiquei todo esse tempo pensando em algo para rimar, e só consegui isso.
  Infelizmente as rimas de samba não são I love you...
 
 
 


terça-feira, 15 de setembro de 2015

Eu não posso ser agora

  Eu só penso em você. O que escrever sobre isso?
  Eu sempre quis você.
  Mas eu não podia ser aquilo que você tinha expectativas que eu fosse. Eu, do meu jeito, nunca correspondi as expectativas das pessoas e, quando todos confiavam que eu fosse fazer alguma coisa, eu deseja o oposto. Quando parecia que eu decidia seguir por uma estrada, eu mudava o curso, fazia uma barragem no rio, cruzava algum lugar que ninguém teve coragem ainda de seguir. Eu sempre fui contra a correnteza. Por que? Creio que meu mister é tentar descobrir, até o final da vida, a resposta disso. Pelo simples prazer de ser assim? Para sentir algo? Por ser diferente, ou querer ser diferente?
  Talvez um dia, daqui um tempo, eu decida o que eu realmente queira. Eu aposte em algo e foque naquilo, eu olhe para um lugar, me apaixone, compre um terreno e faça uma casa lá. Talvez algum dia eu possa tomar decisões rápidas, eu me decida se gosto mais de pizza ou de hambúrguer, se eu gosto de beber cerveja ou suco de uva, se eu prefiro ficar em casa vendo um filme ou ir a um bar com os amigos, se eu prefiro cinema ou teatro, serra ou campo, cidade grande ou pequena. Mas, por enquanto, meu amor, eu não posso.
  Eu sempre quis você. Sempre quis poder olhar para seus olhos, sentir seus braços na minha cintura, pender minha cabeça para baixo e gritar para o mundo inteiro que eu não gostaria de estar em nenhum lugar que não fosse aquele. Queria que você corresse esse mundo comigo, com essa vontade tremenda de viver e de não poder esperar o próximo dia. Sempre quis que fosse sua voz a primeira que eu ouvisse de manhã, o resmungo diário por estar atrasada, o sorriso cansado todas as noites e a risada de deboche quando eu estivesse errada. Que fossem seus braços que me segurassem quando eu estivesse pronta a desmoronar e seus lábios que secassem as lágrimas salgadas que eu hei de derramar quando tudo der errado novamente. Mas você não pode ser nada disso agora.
  Ah, como eu queria! Como eu queria poder ser tudo o que eu quero ser agora, já, nesse momento! Como eu queria passar na sua casa, gritar seu nome e dizer que eu sempre quis você. Que sempre foi você. Como eu queria ser a dona do meu destino, da minha casa, da minha vida e das minhas escolhas. Como eu queria ser aquela que está com as pessoas que ama nessa terça-feira chuvosa de setembro. Como eu queria não ser aquela menina sozinha naquele apartamento gigantesco sem ter quem dizer "boa noite". Como eu queria ser a mulher da minha, da sua, das nossas vidas.
  Mas eu não posso ser isso agora, meu amor. Eu queria tanto, mas acho que não tenho forças o suficiente para admitir que eu quero você. Que sempre foi você. Eu ainda não decidi meu sabor de sorvete favorito, mas continua sendo você. E tudo o que eu mais quero é me decidir se eu quero ser a certinha que dará rumo a sua vida, ou o furacão que vai passar e mudar seu mundo.
  O que você quer que eu seja agora?