Chega a ser impossível escrever algo sobre, e isso, no mínimo, me intriga. E me tira do eixo das abcissas. Me tira do foco, do rumo, do destino. Me tira da rotação, do encosto da cadeira, do ponto de ônibus. Me tira o sossego, a noite de sono, a hora de almoço.
Mas não o fato de você ter partido.
Se quiseres saber isso é o que menos me incomoda no momento.
O que me deixa divagando é não saber como me portar diante da situação. O que escrever sobre isso. Se deveria chorar de tristeza, de raiva, ou só brindar a vida. Será que é permitido ser tão feliz assim?
E essa última pergunta é recíproca. Porque, às vezes, aos finais de semana quando curto minha própria companhia num cinema, quando aproveito as noites silênciosas cuidando de mim mesmo, correndo atrás do que eu quero, ou simplesmente parada em frente a um computador vendo o novo episódio de Narcos e comendo brigadeiro, eu me sinto mal. Mas não por estar na sua ausência, e sim por me sentir relativamente bem com isso. Bem por estar sem você, bem por estar sem ninguém. Bem por estar com a única pessoa que realmente importa nessa vida: eu.
E isso soa um pouco egoísta, meio orgulhoso e até mesquinho. E me sinto mal por sentir isso.
E me sinto atônita por não sentires o mesmo. Não por não sentir minha falta, mas por não se sentir mal por não sentir isso. Como consegue deitar a cabeça ao final do dia e dormir em paz? Como consegue dormir sabendo que vai dormir em paz? Como consegue sair por ai, beijar outras bocas, sem sentir remorso por ter deixado o meu batom vermelho por conta das lágrimas que tanto derramei por ti. Como consegue beber até vomitar numa quarta-feira sabendo que já me deixaste muito enjoada com nossas brigas? Como consegue ser tão frio com essa chuva torrencial do lado de fora dos nossos apartamentos?
Como consegue não sentir mal por isso?
E agora, escrevendo esse texto pra ti, observo que as intempéries foram superadas, que a chuva está passando, que está mais quente na sala. Mas percebo meu âmago se encher de tristeza. E não por sentir sua falta, ou por me sentir sozinha. Não me sinto abandonada, ou trocada, ou traída. Agora, me sinto um alazão puxando carroça: um desperdício de talento escrevendo sobre ti.
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