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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Você não tem o direito

  Hoje eu senti um encomodo no peito, como se precisasse escrever novamente. E isso me deixou alegre, pois estava me aproximando novamente de quem eu era. E, para que isso acontecesse, reli meus antigos textos, os que falavam de você, os que falavam de ninguém, os que falavam de outras pessoas. E até fiquei surpresa com tamanha habilidade que eu tinha com as palavras e que fui perdendo com o passsar dos dias sem escrever. Você tirou isso de mim. Você acalantou minha alma e acalmou esse coração tão traumatizado e não fez mais necessário minhas palavras. E você não tinha esse direito.
  Não foi a primeira vez que virastes as costas para mim, que me deixou parada numa sala gélida esperando saber o que eu faria em seguida. Não foi a primeira vez que fechou a porta sem nem olhar uma última vez para trás. Não foi a última vez que me deu a capacidade de voar e depois cortou fora as minhas asas. E você não tinha o direito de fazer isso.
  Eras lacônico comigo, com gestos prolixos, me deixando cada dia mais atordoada sem saber o que poderia fazer para isso mudar. Me deixou angustiada, e você não tinha o direito de fazer isso.
  Fez-me sentir sozinha junto de meus amigos, fez-me sentir uma estranha na minha própria casa, uma intrusa no meu próprio universo, uma imigrante ilegal no meu próprio país de origem, a dona de uma vida que não era mais a minha. E você, com certeza, não tinha o direito de fazer isso.
  E agora estou seguindo a vida como deveria ter seguido há muito tempo. A tristeza bate forte e eu abraço os livros, a cabeça dói e eu tomo café, o corpo cansa e eu saio para correr, o cabelo fica sujo e eu tomo um banho de meia hora. E eu tento, e sofro, e suo, e luto. Daí, do nada, você surge no meu pensamento com um sorriso maravilhoso e com uma risada convidativa a chorar. Surge uma lembrança feliz, um beijo macio, um abraço aconchegante e tudo o que eu tinha construido no decorrer do dia acaba. Você não tem o direito.
  Ontem chorei muito. Fiz nada, larguei-me as traças, deitei no sofá e a única coisa que fiz foi esperar o dia passar. E estava convicta que faria isso por vários dias seguidos, até algo aparecer e, do nada, me dar motivos para sorrir novamente.
  Você, a partir de hoje, não tem mais direito sobre o sal das minhas lágrimas. Não tem mais o direito sobre o desespero dos meus gritos. Não tem mais o direito sobre o motivo dos meus sorriso. Não tem mais direito sobre minhas roupas, meus cabelos e meus olhos de ressaca.
  Esse é o último texto sobre o quanto você partiu meu coração.
  Você não tem mais direito sobre eles.

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