Certa noite, ainda criança,
acordei como se os deuses das letras e das rimas tivessem me mandado uma
mensagem em sonhos avisando-me para ser meticulosa com cada palavra que
escrevesse e cuidadosa com cada sussurro que suspirassem no ouvido do meu
coração. Parecia um bom conselho, algo de incrível uso e de pratica louvável,
afinal, nos dias de hoje e no mundo corrido do capitalismo selvagem, quem anda
por ai prestando atenção nos slogans
de salões de beleza? Quem presta atenção nas formas e cores dos sons?
Então, meu amor, foi assim que eu vivi os quase
17 anos da minha vida. No que se diz a respeito de escrita, fiz, refiz, li,
reli, apaguei, rabisquei e não publiquei mais da metade dos meus textos. Afinal,
minha incumbência aqui na terra era de ter todos os textos no mais perfeito
estado. Além das concordâncias verbais e nominais, o sentimento tinha que
concordar com a pessoa. Isso, creio eu, é a coisa mais difícil de fazer.
Concordar verbo com substantivo é relativamente fácil depois que você aprende,
mas quem ensina concordar verbo com o coração?
Sem falar que nunca deixei ninguém se
aproximar mais do que deveria do mundo que eu, meticulosamente, fiz e calculei.
Isso é errado, estranho, alem do mais, não combinava comigo. Sentir o cheiro de
outras pessoas nas minhas roupas? Não! Onde já se viu coisa mais estapafúrdia
do que essa?
Até que você, em meio a um saco gigantesco de
pão e de rótulos de cerveja, apareceu na minha vida e mudou toda a realidade de
um mundo conturbado e... digamos... errado. Quem era você antes de mim? A mesma
pessoa que é agora. Quem era eu antes de você? Uma poetisa com as rimas
perfeitas, mas com os pés muito bem firmados no chão. Sei que no inicio tentava
prega-los quando via que eu podia voar muito alto, mas agora sinto que voa
comigo.
Aquele maldito sonho que mudou a minha vida?
O sonho que me ensinou a encarar a vida como um negocio, uma carreira, um
maldito contrato assinado por duas pessoas de total desconhecimento? Amor da
minha vida, nem eu mesmo sei de onde ele veio e para onde foi. Não sonho mais
com essas incumbências divinas, sonho com seus olhos castanhos e seus cabelos
negros. E seu lábios, os labirintos que os meus insistem em se perder.
E voltei a prestar atenção nos slogans de cabeleireiro,
nas fotos das mulheres bonitas do Boticário e nas formas e nas cores dos sons.
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