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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O Novo Retrato de Dorian Gray

  Você sabe que os pintores de rua poderiam fazer um quadro de nós dois e expor por ai. Você sabe que ninguém o compraria e que ele ficaria ao relento pegando sereno, água da chuva, sol escaldante, fumaça dos escapamentos de carros e poucos olhares, os olhos que saíssem da rotina, veriam apenas duas pessoas quaisquer. E reprovariam, e julgariam e cuspiriam remorsos. Sabe também que depois de um tempo ninguém mais saberia por que alguém resolveu pintar dois estranhos, que nem eram tão bonitos assim. O pintor, obviamente, saberia, mas não nos reconheceria.
  E você sabe por que não? Porque ele conheceu dois jovens apaixonados, e agora veria um de cada vez, andando sozinhos pelas ruas do capitalismo selvagem. Dois jovens que, naquele momento, pareciam nunca ter tido qualquer contato com o amor, qualquer suspiro de excitação. Se tal pintor pintasse-me agora retrataria apenas a angustia, angustia essa de esperar. Esperar que algo incrível venha a acontecer, que alguém incrível surja do nada. 
  Impossível que alguém surja do nada. Ao menos que você apareça.
  O tempo vai vir correndo contra o vento e vai tirar toda essa dor. Mas eu não quero, eu quero que minha mente continue assim. Triste? Talvez, mas insana. 
  Quero que minha mente continue assim, quero que minhas lembranças continuem assim insanas, intactas, porque apenas deste modo poderei ouvir sua voz e ver seu rosto.
  Não existe um momento que eu apagaria. Nem se houvesse alguma borracha para tirar a tinta de uma tela esquecida.

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