Não, não meu amor. Não, hoje eu não acordei feliz. Na realidade há dias que eu não acordo feliz. E não, hoje não vou escrever nada feliz, nada sobre amores, sejam eles platônicos ou não, nada sobre lutar pelo o que se quer, nada sobre como a vida pode ser mais bonita quando se está de bem com você mesmo. Não vou escrever sobre felicidade hoje. Não que eu acha que esses assuntos não são importantes, muito pelo contrário, mas não. Hoje não. Hoje vou escrever sobre a tristeza, e espero que você não fique triste depois de ler tudo o que eu tenho que dizer.
Faz tempo que eu não acordo feliz. Não vou dizer que foi sempre assim, muito pelo contrário, sempre acordei com um sorriso no rosto e pronta para viver o dia. Mas não, nos últimos dias eu não tenho estado nos meus melhores momentos. Acordo em um emaranhado de lençóis e cobertas, e sinto-me tão bem em um casulo, protegido do mundo inteiro, que eu não quero levantar. Não, simplesmente eu não quero.
Receitaram-me um ótimo psiquiatra, ótimos remédios, mas não. Hoje não. Qual é o problema, agora me digam vocês, em estar triste pelo menos um dia de nossa singela existência? Digam-me qual é, e nunca mais falarei sobre tristeza. A tristeza é um sentimento tão natural do ser humano como o amor, o carinho e o tesão. Querer estar triste, para um poeta, é quase tão natural quanto querer fazer sexo, para alguns marombeiros. Não que poetas não queiram fazer sexo. Mas não, hoje não.
O que você vai me dizer depois que ler isso? Vai pedir o porque da minha tristeza. Se for amor, vai me dizer que existem muitos outros peixes no rio, se for dinheiro, vai me dizer que ele não é importante, se for solidão, vai me dizer para pegar a solidão e dançar, se forem pensamentos impuros, vai me sugerir um antidepressivo. Mas não vai sugerir-me tudo isso porque se importa comigo, não que não se importe, mas porque não consegue tolerar tristeza alguma, não quer estar triste. Não quer pensar em tristeza, mesmo que seu coração esteja destruído em milhões de pedaços. Você vai chama-la de outro nome: quietude, aprendizado, amadurecimento? Talvez...
Mas a tristeza? Aaaaah a tristeza. Ela chega de mansinho, você não a vê chegar. Ela te cumprimenta com um aceno de cabeça, pega uma cerveja, senta no seu sofá e escolhe um filme. Se ela quiser ela fica, senão quiser, ela vai embora.
Hoje, hoje sim. Hoje ela bateu na porta para entrar, como nunca faz com ninguém, mas ela já é de casa mesmo. Desta vez fui eu quem ofereceu a cerveja para a tristeza, que me garantiu que pegaria mais tarde. Ainda bem que me garantiu. Ultimamente ela tem sido minha única companhia e até comecei a gostar de seus cabelos curtos e avermelhados. Penso em pintar os meus do mesmo jeito.
Sabe por que? Porque dai serei bem amiga da tristeza. Quase irmã dela. E quando ela entrar na minha casa e me pedir uma cerveja eu direi: -Não, hoje não.
Ai ela irá embora sem sentir-se magoada.
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